…uma faceta de Marcus, talvez desconhecida para muitos, a de um homem de família, extremamente amoroso e afetuoso. – Marcus, por Claudia Cerri

matraga biografias February 8, 2018

“…uma faceta de Marcus, talvez desconhecida para muitos, a de um homem de família,
extremamente amoroso e afetuoso.”
Claudia Cerri

“Lanço-me na mais profunda aventura de minha vida. Que o nosso encontro nos possibilite
romper positivamente com o que fomos ontem, na construção de um novo modo de ser, pensar
e agir. Que esta seja uma aventura em busca da leveza, da delicadeza, da serenidade, fazendo
do nosso leito onde carinhosamente nos amaremos, o porto para o reabastecimento das forças
necessárias ao enfrentamento do caos aparente em que se transformou a vida dos
homens.Que sejamos capazes de construirmos a verdade da nossa convivência, na “alegria e
na tristeza´´, na“ abundância e na escassez´´, na “saúde e na doença´´, fazendo do estarmos
juntos mais que uma sociedade econômica ou conveniência social, um caminho de autotransformação.
Te recebo como minha mulher, prometendo-te o meu esforço para não
transigir no respeito à tua dignidade humana fundamental, buscando superar os meus limites
quando estes se impuserem em nome da felicidade a que todos temos direito: Viver a
qualidade!”

Conheci Marcus em novembro de 1987, no I Encontro Mineiro de Trabalhadores de Saúde
Mental de Minas Gerais. Nesta ocasião, trabalhava como Terapeuta Ocupacional na Clínica
Serra Verde, uma instituição para crônicos em Vespasiano, MG. Fomos atraídas, eu e uma
amiga que trabalhava no Serra Verde, para este encontro pelo tema: Por uma Sociedade Sem
Manicômios, que nos pareceu um alento frente à miséria e descaso que víviamos todos os dias
naquele hospital. Mal sabia que ali me vida se misturaria com a de Marcus para sempre.
Não havia muitas pessoas neste encontro, mas a eloquência e discurso de Marcus nos
encantou; logo no mês seguinte, já estávamos indo para Bauru, para participar do II Congresso
Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental. Durante este Congresso foi instituído o dia 18 de
Maio como o dia oficial da Luta Antimanicomial.

Quando voltamos deste Congresso, formamos um grupo que se reunia todas as quintas-feiras,
que se intitulava Movimento da Luta Antimanicomial de Minas Gerais. Como Marcus morava
perto da minha casa, volta e meia dava uma carona para ele no final das reuniões e assim,
entre uma carona e outra, começamos a namorar.
Nesta época, Marcus já pensava em fazer um Mestrado em Saúde Comunitária e em março de
1990 se mudou para Salvador, aceito pela Universidade Federal da Bahia. Continuamos nosso
namoro mesmo à distância, nos encontrando em BH, Salvador e Araçuaí, onde morava sua
irmã Eveline.

Em julho deste mesmo ano, Marcus me propôs ir morar com ele em Salvador e em outubro, lá
estava eu.

Quando solicitada a fazer este relato, decidi mostrar uma faceta de Marcus, talvez
desconhecida para muitos, a de um homem de família, extremamente amoroso e afetuoso.
Nosso início em Salvador foi bastante difícil. Além do dinheiro guardado por Marcus para esta
empreitada ter sido confiscado pelo Plano Collor, eu também estava desempregada e sem
perspectivas de trabalho em Salvador. Víramo-nos como foi possível, vendíamos camisetas
vindas de Minas, eu extremamente tímida e Marcus me dando forças para seguirmos em
frente. Mais tarde, ele teve a idéia de trazermos cachaças de Minas para vendermos e assim
montamos uma loja de cachaças, a Adega da Cachaça Elegante, nome dado por Marcus,
primeiramente no Canela e depois no Rio Vermelho. Aí se iniciou a minha entrada na vida
comercial, que se estende até os dias de hoje, orientada e surpervionada por ele.
Em 1992, nasceu Natalia. Desde o início se estabeleceu entre os dois uma cumplicidade e uma
amizade enorme entre eles. Como eu precisava sair para trabalhar e Marcus tinha mais
flexibilidade de horários, eu tirava o leite e ele, pacientemente, o dava a ela de colherzinha,
para que não abandonasse o peito. Ela cresceu na companhia do pai; quando chegava em
casa, ela estava engatinhando ao redor dele, mexendo nos seus livros. Talvez aí tenha nascido
o amor dela pelos livros também.

Pai de família, ia ao supermercado, buscava Natalia na escola, dava palpite na administração
da casa, cozinhava.

Em 1998, Marcus começou a fazer planos de sair de Salvador, para fazer um doutorado no Rio
de Janeiro. Sua idéia era tentarmos, através deste doutorado, a nossa volta para o Sudeste,
projeto este apelidado por ele de “Go Home´´. Porém Marcus seguiu sozinho e eu fiquei com
Natalia em Salvador.

“ De um certo ponto de vista mais distanciado, o mais distanciado onde o meu pensamento
consegue me levar, se não penso a vida de forma linear, como uma linha que uma vez
estabelecida deve se concluir na mesma estrutura que começou, somente porque um dia
começou, mas sim como uma caminhada que comporta as aprendizagens, as variações, onde a
cada vez cabe reescolher as experiências (por mais que isto contrarie as convenções e
expectativas socias), te diria que está tudo bem, que valeu, que continuaremos a nova etapa
nas novas bases próprias de dois humanos, homem e mulher, que se separam buscando
transceder as regras sociais, para mais uma vez tornarem possível o seu encontro no plano da
liberdade, respeito , solidariedade, amizade e outros valores deste tipo…´´
Apesar da distância, Marcus era bastante presente na minha vida e, sobretudo, na vida de
Natalia.

Marcus desenvolveu um hábito de trazer presentes (objetos de decoração) para mim em todas
as viagens que fez pelo mundo: Grécia, México, Peru, Espanha, Portugal… Brincávamos sempre
que tinha em minha casa um Memorial de Marcus.
Em 2011, Marcus sofreu um grave acidente de moto e nesta época nosso laço se fortaleceu
ainda mais. Após passar 50 dias hospitalizado, e sem poder se locomover, constatamos que
não seria possível ele ficar em Salvador e assim ele escolheu vir para São Paulo, na minha
companhia e na de Jullia e Natalia.

Dia 05 de fevereiro de 2016, após recebermos a notícia de sua morte, Eveline (irmã de Marcus)
e eu seguimos para Salvador para providenciarmos a vinda dele para Belo Horizonte. Jamais
imaginei que voltaríamos assim para casa.

“ Eu faria tudo outra vez…Os arrependimentos não têm lugar nem fazem morada no meu
coração. E o que fiz, se o fiz, moveu-me força cega empurrando para faze-lo. Sim, mas se te
interessa saber, eu faria tudo outra vez, mesmo convicto de que este tipo de história tem o
vício inocente de sempre terminar da mesma maneira… Os casulos são sempre estágios
passageiros…Um dia as borboletas terão que voar e homenagearão com suas cores e com sua
leveza os tempos da invernada…´´

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