…ele tinha traçado um esboço, em parte composto do que ele queria ser, mas, fundamentalmente, daquilo que ele não se prestaria a ser. – Marcus, por Eveline Oliveira

matraga biografias February 8, 2018

“…ele tinha traçado um esboço, em parte composto do que ele queria ser, mas,
fundamentalmente, daquilo que ele não se prestaria a ser.”

Eveline Oliveira

O desafio se impõe: falar algo sobre meu irmão Marcus Vinicius de Oliveira Silva, que retrate
parte da vida dele na ótica particular de irmã um pouco mais nova. Bem, vou dizendo que, por
ser a filha do meio de sete irmãos, sempre estive ladeada pelos dois mais velhos (Marcus e
Sérvio) e pelo abaixo de mim (Caio). Então, brincadeiras e aprontações foram feitas em
comum e por muito tempo, lideradas pelo Marcus. Mas, precocemente esta convivência foi
interrompida pela decisão de que ele passaria a estudar num colégio interno, localizado em
Cachoeira do Campo (Colégio Dom Bosco), tanto recomendado pela excelência dos estudos,
quanto pelo fato de ser dirigido por padres. Marcus foi pra lá fazer a oitava série e neste ano
recebeu algumas visitas da família. Lembro-me que minha mãe ora levava um, ora outro irmão
para visitá-lo no período letivo, sendo que eu fui lá numa dessas vezes. O lugar, bonito, mas
com construções muito grandes, apequenava-nos e a sorte dele (segundo o próprio) era que
havia muitas tarefas extra classe, onde ele podia se sentir mais próximo à vida de casa, devido
ao grande pomar que ali vicejava.

Passado aquele ano, aprovado, ele chega em casa e avisa de sua disposição de continuar seus
estudos no regime de internato. Já traz as informações do Colégio Agrícola Antônio Versiani
Ataíde, localizado em Montes Claros, onde já tinha feito sua inscrição para a prova de
admissão. Foi lá, passou e mudou-se. Este colégio tinha uma vantagem sobre o Dom Bosco,
que pesou na decisão de meus pais, de favorecer sua mudança: era público e aliviava a família
de um ônus bem pesado que o Dom Bosco tinha representado, durante o ano anterior.
Mas…quando Marcus chegava em casa , de férias (o dinheiro não dava para vir em feriados),
contava das diferenças entre um colégio e outro. Foi nesta época que ele começou a comer
pimenta em demasia. Ele tingia o arroz de vermelho de tanta pimenta que punha…era a forma
de conseguir comer a comida do internato. Dizia também da aventura que eram as saídas do
domingo. Nestes dias o Colégio servia um ajantarado às 14 horas e os alunos ficavam livres
para ir à cidade, que distava alguns quilômetros do colégio. Eles iam, sem grana, circular por ali
e fizeram algumas amizades e estas amigas , condoídas da situação dele e dos colegas, às
vezes ofereciam lanches em casa para eles. Muitos anos depois algumas delas foram morar em
Sete Lagoas e quando o encontravam recordavam daqueles lanches, ressaltando a fome que
eles demonstravam.

O Marcus fazia o curso de Técnico Agrícola. Durante o tempo que durou sua formação, meu
pai sempre teve fazenda. No seu período de férias, em que estava em Sete Lagoas, não
faltavam convites para que ele fosse à fazenda e não consta que ele tenha atendido a nenhum.
Se ia na fazenda, o fazia na condição de visitante, sem se dedicar a examinar o manejo das
culturas ali cultivadas, ou qualquer aspecto relativo a pecuária de leite, atividade que também
caracterizava a propriedade. Dois aspectos são demonstrados por esta atitude: o primeiro é
que, em nenhum momento, ser técnico agrícola representou um anseio de sua alma juvenil. O
que ele buscou, precocemente, foi distância do núcleo familiar, arquitetando sua estrutura de
indivíduo, sem estar sujeito a cortes e repressões, tão característicos dos núcleos familiares de
então. O segundo é que conhecia bem seu pai e sabia a dificuldade que seria ter que discutir e
propor qualquer mudança, mínima que fosse, na maneira de lidar com a atividade rural.
Ademais, como ele dizia: de roça ele estava cheio e queria mesmo era ficar na cidade e
aproveitar o meio urbano com suas facilidades.

Sempre me correspondi com o irmão. Mandava cartinhas contando o cotidiano de uma
adolescente e recebia suas respostas ansiosamente. Ele me dizia que os colegas ficavam com
inveja dele, porque não era comum que os demais recebessem correspondência.
Durante todo este tempo, principalmente o vivido em Montes Claros, Marcus representou
uma parabólica para nós, irmãos mais novos. Sempre que chegava, trazia na bagagem a
indicação do melhor som que estava rolando, de vários estilos musicais: os clássicos da MPB,
Rock progressivo – Renaissence e outros, Joan Baez, Violeta Parra, Mercedes Sosa, Fagner,
Ednardo nos foram apresentados por ele. Para se ter uma ideia, ganhei no aniversário de 13
anos, um disco todo azul, com um homem bem esquisito na capa e era o primeiro disco de
Belchior. Era tão novo que quando eu falava sobre estes discos com minhas colegas elas
mostravam muito espanto. No caso do Fagner, até me corrigiam, achando que o nome do
cantor devia ser Vagner, tão desconhecido o cantor cearense era no sul maravilha. Também
indicava livros e autores.

Nestes tempos os conflitos geracionais ficaram mais explícitos. Neste período ele apareceu
usando bolsa a tiracolo, uma coisa que “só as mulheres usavam”, desafiando o machismo de
pai e tios. Inventou de andar de tamanco e jeans , o que horrorizou geral. Também numa
outra hora começou a usar só camisas branca (hábito que adotou daí pra sempre). Só que elas
eram pelo menos uns dois números maiores e ficavam esvoaçando. Ele era bem magro nesta
época e realmente a camisa ficava bem larga. Também é desta época um auto apelido que
adotou: Buldogue. Ele próprio silkava uma cara de buldogue estilizado em suas coisas: bolsas,
mala de brim e desenhava esta caricatura a título de assinatura naquilo que escrevia. Lógico
que isto transformava o período de férias em fértil campo para discussões, provocadas pela
inconformidade de pai com seus modos. Confrontos foram poucos, porque minha mãe
contemporizava e gastava-se mediando as contendas para que não viessem a furo.
Formado, veio para Belo Horizonte e logo foi aprovado no vestibular. Queria Fumec, não deu.
Fez os primeiros anos na Newton Paiva, mas logo se transferiu para a sua primeira opção,
onde formou-se. Teve um emprego que odiava no Banco e aí, por indicação de uma amiga, foi
dar aulas no vizinho município de Contagem. De quê? Técnicas Agrícolas. O famigerado curso
deu-lhe a possibilidade de se independer financeiramente. Vida difícil de professor e militante
do movimento estudantil, e, posteriormente, do movimento da classe trabalhadora. Depois
de formado em Psicologia, já com uma filha, passou a clinicar e daí pra cá a trajetória dele é
conhecida por vocês.

Mas, já no período em que Marcus vivia em Salvador era comum o surgimento de conflitos
nos encontros familiares – a família é toda formada de gente que tem opiniões próprias sobre
quase tudo, mas o campo da polêmica maior sempre foi a política. Demoramos a aprender
que, nesses eventos devíamos privilegiar os assuntos que nos uniam e não os que nos
separavam. Numa dessas situações, num pós Natal, achei por bem mandar a ele um email em
que o exortava a vivenciar a dimensão de família como um bem precioso, diminuindo as
ocasiões de tensão e valorizando o aconchego entre familiares. A resposta veio, didática como
aquelas que recebia nas cartas, me alertando sobre quão limitador pode ser o meio familiar
para quem só enxerga o seu aspecto protetivo. Ao ler aquela resposta, onde ele falava sobre o
processo de individuação e da necessidade de todos de passar por isto, de repente percebi que
ele, muito precocemente tinha se dado conta de que, para ser ele mesmo, precisaria dar
distância de seu núcleo familiar, sobretudo de seus pais que, pela posição social em que se
encontravam em Sete Lagoas tinham expectativas sobre ele que ele não queria ser obrigado a
satisfazer. E que, desde Montes Claros ele tinha traçado um esboço, em parte composto do
que ele queria ser, mas, fundamentalmente, daquilo que ele não se prestaria a ser.
Para nossa sorte e da Psicologia, ele plasmou uma vida rica e quase tudo nela fala sobre o que
compunha aquele email..sobre o direito de cada um ser o que é, com suas características
peculiares, sem ter que se conformar a modelos pré estabelecidos. Vida profícua, que nos
tocou enquanto era física e continua a nos tocar na esperança de que possamos contribuir
para que a vida seja mesmo, rica assim!!!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *